O que as crises podem nos ensinar?

A crise da saúde mundial, trazida pelo coronavírus, podem deixar um legado e nos ensinar diversas coisas sobre nós mesmos. Uma delas é a autorreflexão provocada pelo isolamento social. Essa parada forçada nos leva a um caminho interno, mesmo que não se deseje. E é aí que tantas pessoas tem percebido tudo isso como sofrimento. Não estamos acostumados a ficar tanto tempo conosco mesmo, ou com as pessoas que moram com você, com os arranjos de casa que se fizeram presentes nesse momento. Mas quero falar sobre o incomodo em lidar consigo mesmo.

Quando entramos em contato com nossos sentimentos, pensamentos, ou seja, com nossa subjetividade, estamos operando no mundo de outra forma. É como se uma outra perspectiva sobre a vida ganhasse espaço. Em modo operandis “normal” estamos direcionamos nossa atenção para fora, para projetos, objetos, pessoas, eventos ao nosso redor, estamos no modo extrovertido. Mas o que o isolamento tem nos mostrado é que nosso modo introvertido é necessário, mas não ocorre sem incômodos e angustias. Agora estamos sendo levados a prestar atenção em como reagimos às coisas e aos estímulos, sobre o que sentimos, tomando consciência do que somos e do que pensamos. É uma forma de estar mais conscientes de si mesmos como sujeito de sua vida.

Entretanto, diante dessa situação é normal ocorrerem algumas questões comuns aos seres humanos, a nossa vivência humana. Normalmente, a primeira fase é entrar em um estado de confusão. As pessoas se encontraram empurradas a seguir em um bosque escuro e somos forçados ao isolamento.

Muitos procuram um caminho de volta ou de saída, algo que possam se segurar e confiar, que lhe dê luz, esperança e senso de direção. Há ansiedade e medo em atravessar esse caminho ou uma sensação de catástrofe iminente, caso o caminho de volta não for encontrado rapidamente.

A questão é que ninguém sabe a resposta. Estamos todos no escuro, tateando, procurando. Mas o importante nesse momento é dar uma olhada nesse espaço, é focar sua atenção naquilo que aparece.

Vamos a um exemplo: sempre fui ansioso, você pode dizer. Ok, vejamos: como essa ansiedade está vindo agora? Ela tem algum disparador? Como ela passa? Você fica esperando ela passar ou usa de alguma ferramenta que aprendeu (respiração, visualização, atenção focalizada)? Quais estão sendo suas aprendizagens? Você desenvolveu alguma capacidade de entender o que é, de verdade, sua ansiedade?

Geralmente, as pessoas se queixam de não ter tempo suficiente de fazer coisas, de prestar atenção na sua própria vida, porque o mundo lá fora não pára. Agora, com tempo à nossa disposição, você tem conseguido aproveitar isso?

Essa crise passará mais cedo ou mais tarde, e terá consequências pessoais e individuais, e, a aposta de sociólogos, cientistas sociais e economistas é uma nova forma de pensar a economia, as relações sociais, o trabalho. A crise era iminente, um vírus só nos forçou, de modo brusco, a arranjar um modo de lidar com isso.

O desafio será, claro, aprender com essa experiência e levar as aprendizagens adquiridas nesse período adiante. Talvez, o que possamos tirar desse período de desaceleração e de isolamento forçado é o encontro de um ritmo e um equilíbrio mais coerentes, e quem sabe, até mais sábios na vida.

A questão que fica é: quando as portas forem liberadas e pudermos sair você se sentirá livre, como uma liberdade de quem teve um pesadelo e só quer sair dali? Ou usará essa experiência para que uma nova versão de si possa emergir?

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